- Como interpreta o impacto do COVID-19 no sector imobiliário? Quais os desafios e oportunidades no sector?
Em Portugal, fechámos o ano de 2019 com uma taxa de crescimento de 2% no número de transações de alojamentos familiares. Apesar de o ritmo ter abrandado, o que já era expectável devido não à falta de procura, mas sim à falta de stock que se vinha a verificar, o imobiliário conseguiu registar um aumento positivo.
Este surto pandémico foi completamente inesperado, e ninguém estava à espera que, de repente, tudo mudasse de uma hora para outra.
Perante este cenário, que sabemos que terá um impacto negativo em quase todos os sectores da economia, creio que se avizinha um período com alguns desafios, nomeadamente relacionados com alguma quebra da procura estrangeira, motivada pelas questões sanitárias que farão com que, nos próximos tempos, haja uma tendência para o adiamento de investimentos e uma retração nas viagens, e também no mercado doméstico, devido à quebra do poder de compra das famílias motivada pela instabilidade laboral que é expectável.
Por outro lado, surge a oportunidade da dinamização do mercado de arrendamento e do investimento para este sector, que se estima que cresça, e também uma janela de oportunidade na captação de não residentes para Portugal, que não sendo imediata poderá ser promovida pela generalização do teletrabalho e pela segurança que o País tem transmitido pela forma como está a lidar com esta crise sanitária. Creio que serão estes os desafios e oportunidades a que o imobiliário assistirá nos próximos tempos.
- Do contacto que tem com os profissionais da área, qual é o sentimento geral?
É sobretudo de angústia, pelo inesperado da situação. A APEMIP fez um inquérito às empresas de mediação imobiliária (cerca de 4.000), e 97,4% declararam ter registado uma quebra da procura no último mês. 78.1% afirmaram ter tido clientes a desistir de negócios, e 20,5% responderam que tiveram clientes a desistir da compra, mesmo depois da celebração do CPCV.
Perante este cenário, há alguma preocupação, mas também se revela uma vontade das empresas em procurarem alternativas para realizar os seus negócios. Apesar de estarem impedidas de fazer visitas a imóveis, devido à implementação do Estado de Emergência, muitas optaram por uma via tecnológica para fazer visitas virtuais e manter assim o contacto com os seus clientes.
Em número de negócios concretizados tal poderá não ser relevante, até porque a compra de imóveis é um negócio que, regra geral, exige uma visita ao local, mas é uma forma de continuarem ativas e a promover o seu negócio.
- Quais são as principais perguntas/perspectivas/pedidos por parte das empresas de promoção e investimento imobiliário (nacional e internacional)?
Neste momento, a mensagem que transmitimos é de que se deve esperar para ver como vai evoluir a situação. Não é a altura de fazer futurologia, e é necessário que haja realismo a lidar com o cenário que estamos a viver. A nossa recomendação tem sido no sentido de aguardar, para que se possa avaliar o impacto efetivo desta pandemia no panorama nacional e internacional, e assim tomar decisões acertadas.
- Considera que as medidas de apoio às empresas estipuladas pelo Governo são adequadas? Em que medida?
São sobretudo insuficientes. Era necessário que o Estado fosse mais firme nas medidas que assume, sobretudo naquelas que não têm impacto orçamental. Por exemplo, no que diz respeito à regulamentação de moratórias a atribuir pelo sector financeiro, poderia ter ido muito mais além, ajudar-se-ia muito mais as pessoas e empresas, se a medida fosse mais abrangente, quer nos empréstimos a incluir, quer nos critérios de admissibilidade. Não percebo porque é que este regime não foi estendido ao crédito ao consumo, automóvel ou segunda habitação por exemplo, ou porque é que não foi considerado um prazo mais alargado, por exemplo de 12 meses em vez de seis, que permitiria um maior alívio do orçamento das famílias e empresas.
Já no que diz respeito às linhas de crédito para as empresas, o imobiliário foi finalmente integrado na linha específica de 3 mil milhões de euros (que estava inicialmente prevista apenas para os sectores do turismo, restauração e indústria), o que não sendo a solução perfeita, é pelo menos uma alternativa a que as empresas poderão recorrer.
- Que tipo de estratégia tem a APEMIP definida, por forma a apoiar os profissionais da área considerando o actual e futuro cenário económico?
Neste momento, e perante a situação de Estado de Emergência, a APEMIP abriu os seus serviços de apoio a todas as empresas de mediação, sejam elas associadas ou não associadas. De futuro, a APEMIP manterá o seu trabalho de defesa do imobiliário e da classe, perante os desafios que se apresentarem ao sector.
- Acredita que Portugal permanecerá na linha de interesse de investimento internacional? Porquê?
Acredito, sim. O País não deixou de ter as qualidades que fizeram dele interessante para o investimento estrangeiro nos últimos anos. Continuamos a ser um país seguro, com bom clima, boa qualidade de vida, boa gastronomia, e com grandes oportunidades de investimento no sector imobiliário, sobretudo se apostarmos na descentralização do investimento para fora das principais cidades. Com esta situação sanitária, revelámos também ter capacidade para lidar com problemas sanitários. Apesar de ser expectável que, nos próximos tempos, se registe um decréscimo da procura estrangeira devido ao momento que estamos a viver, depois de ultrapassado este momento continuaremos no panorama da captação de investimento estrangeiro, como o fizemos no passado, e que tanto contribuiu deu para a recuperação económica nacional.