A crise de 2008 e a atual crise são claramente diferentes, com origens e consequências distintas, e, portanto, não podemos dizer que o mercado imobiliário está mais ou menos preparado. A crise atual foi mais repentina, tivemos de nos ajustar muito rapidamente, implementando medidas de contenção no espaço de dias. Talvez o sistema financeiro esteja mais preparado para esta crise, com o total foco do Governo no combate ao vírus. É possível sentirmos que estamos a cair mais fundo nesta crise, mas a recuperação tende, ao longo do tempo, a ser cada vez mais rápida. Desta forma, esperamos uma recuperação relativamente rápida e consistente em praticamente todos os setores da área.
No que diz respeito ao sector de escritórios e investimento, não estão previstas grandes quebras de valor dos ativos, podendo existir um ajustamento em alguns casos. Antes da crise a procura superava a oferta e atualmente conseguimos estabilizar um pouco esta balança, existindo ainda procura suficiente para responder à oferta. A maioria dos investidores vai tentar manter o máximo de tempo possível os seus imóveis em carteira, sem os desvalorizar, estão on hold para tentarem redefinir a sua estratégia. Assim, prevemos que todos os sectores, uns mais e outros menos, passem por um ajuste que resultará num equilíbrio.
Os sectores que estão atualmente a ser mais afetados serão muito provavelmente os mais afetados a longo prazo. Falamos do retalho não alimentar (com a excepção da restauração, também muito afectada) e do turismo. O retalho lida com grandes perdas nas vendas, das quais será difícil recuperar ainda este ano, nalguns casos sendo necessário repensar a estratégia de negócio. Por outro lado, os retalhistas com maior presença online conseguiram ainda obter alguma liquidez, enquanto que os comerciantes com menor escala foram muito mais afetados. Já o turismo foi fortemente condicionado pelas medidas de higiene e segurança. Apesar de ter passado uma fase de paragem, irá começar a retomar aos poucos, começando com a abertura de alguns hotéis e ativação de voos. No entanto, terá de saber lidar da melhor forma com as restrições e com a falta de confiança do consumidor. Ou seja, o desafio continua, é importante estarmos atentos e irmos respondendo de forma ética e segura.
Da mesma forma que os setores mais afetados se viram impactados no curto prazo, o mesmo se aplica aos setores que com a crise atual viram o seu negócio crescer: o retalho alimentar e a área logística, associada ao comércio online, são os exemplos mais óbvios. As compras online no sector alimentar cresceram durante a pandemia, a tendência das compras online já se verificava pré-COVID-19, mas saiu reforçada com esta crise, com as marcas a aproveitarem para alavancar as suas vendas.
Outras oportunidades irão sugerir no mercado, o aumento da capacidade industrial e logística será uma realidade incontornável devido à grande dependência de produtos que se tem vindo a verificar por parte de certos países. Assim, a tendência será fortalecer o tecido industrial dentro da própria União Europeia por forma a obter mais independência e capacidade local.
O sector de escritórios, não saindo prejudicado, e não sendo o maior ganhador, sairá beneficiado com o ajuste da procura face à oferta, com os valores ajustados conforme a localização dos imóveis.
O investimento em Portugal nunca foi posto de parte, mesmo nas piores fases da pandemia. Os investidores mantiveram o contacto e o interesse pelos ativos, tentando resguarda-se ao máximo de decisões, aguardando por alguma estabilidade. Assim, é previsível que o investimento retome agora que entramos numa fase mais estacionária do vírus. É necessário estarmos disponíveis para ouvir e atender os investidores, por forma a continuarmos a receber este voto de confiança.
Assim, Portugal sai mais forte desta crise na medida em que demonstrou ser capaz de lidar de forma exemplar com um problema gravíssimo e imprevisível. Ao longo deste tempo tivemos a oportunidade de pôr em prática novos métodos de trabalho, testar novas ferramentas, e refletir sobre novos projetos, adquirindo novas competências que nos ajudarão nas dificuldades futuras.